Governo do Distrito Federal
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16/07/13 às 12h04 - Atualizado em 29/10/18 às 11h13

Perspectiva de futuro aos filhos da violência

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Crianças e adolescentes que chegam com suas mães à Casa Abrigo também são acolhidos e recebem tratamento para mudar a realidade de agressão

Um soco no rosto de seu filho foi o estopim que levou a diarista F.F denunciar seu marido e se refugiar na Casa Abrigo, que além de acolher mulheres vítimas de violência doméstica e sexual ampara também crianças e adolescentes que chegam com suas mães.

“Eu acho que meu amor era doentio, porque acreditava que ele iria mudar, mas quando ele agrediu meu filho mais velho, meu sentimento foi se transformando em revolta e prometi que se ele encostasse a mão nele e em mim de novo eu iria procurar a polícia, e foi isso que fiz”, desabafou a ex-abrigada de 34 anos.

Francisca viveu com seu companheiro durante oito anos, período em que sofreu agressões diárias, que passaram a ser divididas com seus dois filhos, já que o caçula ainda estava em sua barriga, parte do corpo que também não foi poupada pela violência.

“Não queria dar essa vida aos meus filhos, ao mesmo tempo, não sabia se a Casa Abrigo iria cuidar deles também, mas eles os levaram ao hospital quando precisou, deram uma cama, roupas, comida, cuidaram da higiene e ainda ofereceram tratamento com psicólogas e psicoterapeutas”, declarou.

A ex-abrigada entrou na casa – como se refere à instituição – no dia 5 de outubro de 2012 e saiu em 8 de fevereiro deste ano. Hoje ela mora em uma casa alugada em Ceilândia, região onde conseguiu creche para seus filhos e emprego em casa de família.

Essa história com final feliz é o que todas as moradoras da Casa Abrigo – que permite a permanência durante 90 dias, fora os casos em que a Justiça determina um prazo maior – sonham em ter quando deixam a instituição com seus pequenos.

Futuro aguardado com ansiedade pela diarista M.R.S., 39 anos, mãe de uma adolescente de 11 anos e dois meninos, de 10 e 8 anos, que deu um passo rumo a um futuro sem agressões desde o dia 11 de junho deste ano.

“Ver meus filhos sofrerem foi a principal razão da denúncia. Primeiro, a pessoa com quem morava – irmão do primeiro marido – abusou da minha filha e, depois que o levamos à Justiça, ele começou a me espancar e a ameaçar de morte meus outros dois menores. Nesse momento vi que a saída seria mesmo a Casa Abrigo”, contou a vítima.

A menina, muito abalada com os acontecimentos recentes, não quis comentar sobre o assunto e resumiu sua vida na casa em poucas palavras. “Sem brigas estou conseguindo estudar melhor” – a rotina escolar é garantida na instituição para todas as crianças e adolescentes que chegam com suas mães.

Seus irmãos abordaram a questão de uma forma típica da idade de meninos e disseram em coro que “jogar bola é o que mais gostamos de fazer”, uma entre as diversas atividades de recreação oferecidas pela casa, além dos tratamentos psicológicos e psicopedagógicos.

O caso da administradora e artista plástica, M.K.P., 36 anos, também teve o filho como motivo principal da denúncia, feita dois anos depois de sofrer violência física diária seguida da destruição de parte da residência em que vivia com seu parceiro e filho de seis anos de idade.

“Meu filho presenciava todas as brigas e partia para cima do meu marido quando ele me batia. Meu limite foi quando fui chamada na escola e disseram que ele estava batendo nas meninas dizendo que era normal, pois via o padrasto batendo na mãe”, afirmou, emocionada.

O envolvimento emocional do filho era tamanho na relação que, de acordo com M.K.P., quando ela fugiu de casa para fazer a denúncia, foi ele que deu todas as informações ao policial para o registro da ocorrência.

“Meu pequeno é outro dentro da Casa Abrigo. Ele deixou as agressões de lado e trocou pelas brincadeiras. A consulta com a psicóloga está marcada e tenho esperanças de conseguir apagar esses dois anos da vida dele”, ressaltou.

LAR ESTRUTURADO – De acordo com levantamento realizado pela Secretaria da Mulher, existem mais crianças e adolescentes dentro da Casa Abrigo que mulheres abrigadas, número que até junho deste ano girava em torno de 93 para 72, respectivamente.

Meninos de até 12 anos e meninas de qualquer idade podem acompanhar suas mães na instituição, onde recebem tratamento psicológico e psicopedagógico, além de suprir necessidades básicas como alimentação, vestimenta, transporte, lazer e segurança.

Médicos e odontólogos também fazem visitas a cada 15 dias e cuidam da saúde das crianças e adolescentes, além das mulheres abrigadas que, por meio de acordo com a regional de saúde da cidade onde a casa está localizada, também podem utilizar do serviço médico sem ter que se identificar.

Durante a permanência na casa, não há interrupção do processo educativo. As crianças em idade escolar, que têm matrícula na rede, são transferidas para a escola mais próxima da Casa Abrigo, com direito ao translado, para que possamos garantir o sigilo e integridade da mãe e da criança.

“Também garantimos que, ao sair da casa, elas sejam matriculadas em uma escola próxima à residência ou local de trabalho da mãe”, afirmou a secretária da Mulher, Olgamir Amancia.

A ideia, segundo a secretária, é que a criança e a mulher “se sintam abrigadas, não escondidas” e que elas permaneçam apenas os três meses, como prevê a lei.

Kelly Ikuma (Agência Brasília)