Governo do Distrito Federal
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1/04/16 às 14h55 - Atualizado em 29/10/18 às 11h14

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE: Racismo na raiz do genocídio

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Refletir sobre o genocídio da população negra e dos povos tradicionais de matrizes africanas é o desespero de uma mãe. Hoje, quando penso no processo de genocídio que a gente vê, eu fico com água nos olhos. Meu filho fará 8 anos em 10 de maio. A cada aniversário, é como se eu estivesse enterrando uma parte dele, porque aumentam as chances de ele morrer. Torço para que a juventude dele passe logo, porque, enquanto ele se mantiver jovem, terá mais chances de morrer.

Quando trabalhei na implantação do Plano de Juventude Viva no estado de São Paulo, eu me deparei com a realidade das milícias, da feijoada, quando a polícia avisa que quem tiver filho que o guarde em casa, porque eles vão separar as partes do corpo para fazer a feijoada. Essa é a conjuntura do estado mais desenvolvido do país. Em Alagoas, vive-se uma guerra civil, onde há territórios em que se pode viver e outros que não. Onde há locais em que é permitido ser jovem, e em outros, não.

Tudo isso é causado pelo racismo e pelo machismo. É o machismo que diz ao jovem negro que ele tem obrigação de matar alguém. É como se fosse ritual de passagem dos jovens da periferia. A disputa de territórios se dá como a dos leões: os que não querem entrar na briga são mortos.

Pensar esse genocídio é discutir o racismo em duas grandes vertentes: a vertente do racismo institucional e a do racismo incorporado à educação da sociedade. O racismo institucional é o que faz um médico ver o corpo baleado de um jovem negro e simplesmente mandar para o IML sem fazer a notificação de forma correta. A mãe de um jovem negro baleado, antes de pensar na sua tristeza, precisa dizer que o filho não é bandido. O racismo que destrói a identidade é a principal causa de morte de jovens negros no Brasil porque é a desumanização do corpo negro que permite a morte.

É a banalização do tiro que acerta o rosto de um jovem negro. É a escola que banaliza a briga na escola, a violência doméstica que a criança negra sofre. Quando a escola é responsável pela banalização do corpo, ela é tão responsável pela morte do jovem negro quanto a polícia que mata. Outro argumento que se usa para negar esse genocídio é que o executor é outro negro. Sim. Sempre foi preto o capitão do mato, porque o branco não tem coragem nem de sujar as mãos para matar nossos corpos. Ele se utiliza do poder econômico para matar os negros.

Juliana Kitanji, 

é coordenadora Nacional de Juventude do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma), bacharel em gestão de empresas e coordenadora financeira da Terra Viva e da Juventude do Movimento Nação Bantu (Monabantu)

 

 

Um longo caminho que começa a ser trilhado

A articulação que a estudante de serviços sociais da Universidade de Brasília (UnB) Alessandra Beatriz dos Santos, 20 anos, demonstra ao falar foi construída durante toda a formação em escolas públicas do Distrito Federal. Mesmo que a qualidade do ensino dos colégios governamentais, na maioria dos casos, fique aquém da dos particulares, foi a partir dali que ela conseguiu construir noções de cidadania em relação à cor da sua pele e, hoje, ter argumentos suficientes para justificar o quanto políticas de afirmação, como as cotas raciais, são necessárias para a diminuição da violência que mata os jovens negros do Brasil. O caminho a ser trilhado é o tema da quinta e última reportagem da série O genocídio invisível. 

“Antes, se via poucos negros nas instituições de ensino superior. Não existiam oportunidades de mudanças, muitos sequer concluíam o ensino médio. A educação é um dos meios de evitar a morte de jovens negros”, garante. A UnB foi a primeira instituição de ensino superior no país a implantar um sistema de cotas visando a reparação do débito histórico que o Brasil tem com a comunidade negra: atualmente, 5% das vagas são destinadas a alunos que se declaram afrodescendentes.

Os efeitos mais imediatos refletem em estudantes como Alessandra, que ainda estão na faculdade. Mas, para especialistas, sua verdadeira eficácia será mostrada a longo prazo. “Não há dúvidas que as cotas já tiveram um papel importante para a diminuição da violência contra a juventude negra. Essa geração de jovens negros que se formará em um curso superior vai poder contar sua história e descrever a própria realidade sem restrições”, garante o antropólogo José Jorge de Carvalho, responsável pela adoção das cotas raciais na UnB, em 2004. Para ele, até então, o que se via eram casos pontuais de negros no ensino superior e “brancos solidários”, que se engajavam na luta. “Agora, há uma intelectualidade negra fazendo esse papel que não vai mais ser silenciada.”

Integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), Juliana Cezar Nunes acredita que as cotas contribuem para tirar grande parte da juventude negra da vulnerabilidade. “É uma forma de eles contornarem uma situação que foi criada no passado, no qual poucos integravam o ensino superior. O jovem ganha outras dimensões. Isso, desde a entrada na faculdade, com a transformação por meio do estudo. É a oportunidade de crescer.”

Porém, políticas afirmativas limitadas ao ensino superior não são capazes de frear, de forma mais imediata, o genocídio simbólico da juventude negra, atestado no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência contra Jovens Negros e Pobres, entregue no ano passado. Para a historiadora Elaine Meireles, ações como o Plano de Prevenção à Violência contra a Juventude Negra, desenvolvido pelo governo federal, ainda ficam aquém da real urgência da situação no Brasil: atualmente, um jovem negro de 21 anos tem 147% de chances a mais de morrer assassinado que outro de cor diferente. “Esses projetos ainda não chegam a atingir o público majoritário, deixando uma grande parcela desses jovens de fora dos seus benefícios”, reclama.

Muito a conquistar

Dessa forma, o papel de despertar uma consciência de raça também fica nas mãos de setores da sociedade civil organizada. Para Samuel Estrella, produtor cultural que trabalha com o movimento negro em São Sebastião, é preciso potencializar o mercado criativo das regiões periféricas de forma a estimular os jovens. “Medidas como as cotas são louváveis, mas ainda é pouco. É preciso trazer as políticas públicas para dentro da periferia. Se não, eles vão continuar morrendo. São garotos de 12, 13, 14 anos que querem ter acesso também ao que os outros jovens da sua idade têm.” A própria formação de ícones dentro do movimento ajudam a garantir à juventude negra uma representatividade que diminua o racismo institucional, que ainda persiste na sociedade brasileira. A cantora brasiliense Ellen Oléria é taxativa: “A arte não me ajudou a entender o racismo; a violência racial me ajudou a entender o racismo. A arte me ajuda a encarar o racismo.”

De acordo com ela, sua infância foi permeada de discursos que “escureceram” seus pensamentos, falas e raízes para ela aprender, ainda mais, a se colocar contra qualquer manifestação contrária à sua cor. “O discurso da meritocracia pretende mascarar, apagar o que já está muito bem marcado no cotidiano e na memória: uma história do Brasil racista. É por causa dela e de um povo que muitas vezes insiste em prolongar esse tipo de tradição, sem críticas ou revisões, que sobrevive o projeto de extermínio das populações negras, principalmente os jovens negros.”

Ativista do movimento negro, Claudia Maciel teve o irmão assassinado com um tiro na cabeça em Samambaia quando ele tinha apenas 16 anos, em janeiro do ano passado. Isso fez com que ela começasse a acompanhar os jovens da região. Em um ano, ela viu outros 15 deles serem mortos. Todos negros. Para ela, as cotas raciais não são suficientes. “O lazer é um caminho. Atualmente, somente o Plano Piloto é contemplado com esses espaços. Não há meios para o jovem da periferia participar. O esporte também é um ótimo aliado, mas não há incentivo nas comunidades mais pobres, onde predominam os negros”, explica.
Quando ele existe, há quem o aproveite. Raylane Stephany Barbosa, 23 anos, ingressou no segundo curso superior pelas cotas raciais. No ano passado, ela se formou em serviços sociais pela UnB e, em 2015, iniciou a graduação em designer de moda pela Instituto Federal de Brasília (IFB). “Antes, muitos não conseguiam sair do ensino médio. As cotas deram a oportunidade do negro se reconhecer na sociedade e também ser reconhecido por todos.”

Colaborou Thiago Soares

Duas 
perguntas para

Romário, 
senador (PSB-RJ)

Em 2015, a CPI da Juventude Negra atestou que há um 
genocídio simbólico de jovens negros no Brasil. Na opinião 
do senhor, o poder público tem trabalhado para mudar esse cenário? 

Eu não enxergo uma política pública ofensiva para diminuir o genocídio dos jovens negros. Se ela existe, não é eficiente, porque o índice de morte nunca foi tão alto. De forma indireta, poderíamos falar em educação, mas houve uma retração nos investimentos em educação.

O senhor acha que o tratamento da sociedade em relação 
ao jovem negro mudou desde a sua juventude, ou ainda 
vivemos em uma situação de racismo institucional?

O racismo institucional ainda existe. E isso é visível não só na segurança pública; na saúde, também. Acredito que houve uma leve melhora, mas ainda morrem muitos inocentes, apenas por serem da periferia e negros.

Acesso à universidade

2013
» 12,2%  —   Cotas sociais
» 20%  —   Cotas raciais
» 67,5%  —   Ampla concorrência

2014

» 5%   —  Cotas raciais
» 25%  —   Cotas sociais
» 70%  —   Ampla concorrência

2015
» 5%   —  Cotas raciais
» 37,5%  —   Cotas sociais
» 57,5%  —   Ampla concorrência

2016
» 5%  —   Cotas raciais
» 45%  —   Ampla concorrência
» 50%   —  Cotas sociais

Fonte: Secom / UnB


Fonte: Correio Braziliense